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Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, volume 1, número 3, setembro de 1998
Editorial
Artigos
Fenomenologia da depressão estado-limite
Kimura Bin
Depois que o conceito de borderline ou de “estado-limite” foi constituído, seu emprego se generalizou rapidamente na psiquiatria contemporânea.
Esse conceito está edificado inicialmente na fronteira entre as psicoses esquizofrênicas e as neuroses. Na psicanálise, a psicogênese do estado-limite foi principalmente formulada em termos de teoria de relação de objeto. Supõe-se que os doentes estado-limite fracassaram, na sua primeira infância, ao integrar suficientemente, nas relações, sua imagem do eu à imagem primordial do objeto materno.
Neste trabalho, postulando a clivagem como o transtorno gerador, é fornecido um fundamento teórico para o parentesco – suposto primeiramente do ponto de vista puramente clínico – entre o estado-limite e a esquizofrenia.
Algumas reflexões sobre a autobiografia de Louis Althusser
Marta Rezende Cardoso
L’avenir dure longtemps (O futuro dura muito tempo), relato autobiográfico de Louis Althusser, é um texto de grande riqueza, e que se presta à investigação psicanalítica. Neste artigo, nossa leitura foi orientada por uma reflexão sobre o tema do superego.
Explorando a história de Althusser, observamos um conflito interminável: ser subjugado, internamente, pela sexualidade inconsciente do outro. Analisamos o aspecto traumático e violento desta “relação de poder” – poder sexual – mostrando como esta se exerce na economia psíquica, aí delineando, a nível das instâncias psíquicas, uma configuração particular.
Mediante este material, desenvolvemos a idéia de que a instância do superego é ancorada no pulsional, e que impõe no psiquismo um modo de “legalidade interna” implacável e contraditória na qual o indivíduo pode, de certa forma, permanecer prisioneiro.
A casa-ambiente. Anotações sobre arquitetura e psicanálise de Winnicott
Esther Cervini
Pretendo estabelecer uma aproximação entre a psicanálise de Winnicott e arquitetura, a partir da relação entre o ambiente e a casa, isto porque a abordagem winnicottiana do conceito de objeto-subjetivo permite pensar um estágio de fusão entre mãe-bebê que vai encontrar um paralelo entre indivíduo-casa e indivíduo-cidade em sua fase adulta. O ser humano não pode existir sem um habitat, como aponta Winnicott, e as psicopatologias profundas, caracterizadas pelas angústias impensadas, seriam decorrentes de falhas no processo de instalação do indivíduo no mundo. Portanto, em que medida a arquitetura pode afetar o existir humano, uma vez que é a única das artes realmente capaz de abrigar, ou seja, capaz de constituir-se concretamente num ambiente pela sua capacidade essencial de envolvimento, antes mesmo que seja tomada como objeto de representações e desejos?
Em torno da causalidade e da causalidade psíquica
Olivier Douville
O projeto deste artigo é retraçar um percurso. Partir do “mútuo engendramento do aparelho psíquico e do aparelho de linguagem” (A. Green) para encontrar, no exame dos modelos do pensamento e do julgamento em Freud, os próprios princípios daquilo que, ao causar o psíquico, causa o sujeito e suas linhas de divisão. Em seguida, examinar a problemática da realidade da fala e do objeto no tratamento, para também contribuir com alguns grãos no debate: psicanálise e epistemologia contemporânea.
Mostrando, aqui, que a causalidade de que se trata na intimidade do sujeito não é um “ponto de partida” dado para uma programação irredutível do sentido vivido, tentaremos indicar que a racionalidade psicanalítica vai bem mais longe do que queremos admitir.
De uma psicopatologia geral a uma psicopatologia fundamental. Nota sobre a noção de paradigma
Pierre Fédida
Este artigo examina a seguinte questão: existiria uma abordagem especializada do humano que, sem ser nem uma psicologia nem a psiquiatria, tenha os meios metodológicos de um projeto de observar e descrever os distúrbios psíquicos e compreender seu acontecimento fenomenal singular no cerne da generalidade da experiência?
A questão se acha colocada desde 1910 por Karl Jaspers nos trabalhos que precedem a publicação, em 1913, de sua Psicopatologia Geral.
A partir daí, o problema ao qual nos encontraríamos confrontados é o da condição fenomenológica da psicopatologia, ou seja, a vontade de não fazê-la resultar e depender da psicologia. E se a psiquiatria é, há um tempo relativamente longo, um terreno de observação e de pesquisa racional de classificações, é preciso constatar que suas práticas empíricas foram, há muito, consideradas impotentes para conduzir à constituição de uma psicopatologia.
Dessa forma, o autor é levado a argumentar que seria, então, conveniente pensar o projeto de uma psicopatologia fundamental como um projeto de natureza intercientífica, em que a epistemologia comparativa dos modelos e de seu funcionamento teórico-crítico desempenharia o papel determinante de uma consciência de seu limite de operatividade e de sua aptidão a transformarem-se uns aos outros.
Avatares en la clínica del sujeto y el destino: una experiencia mexicana
Francisco Landa Reyes
São apresentadas algumas reflexões sobre a constituição, no México, de uma Associação Civil dedicada a pacientes com doenças psíquicas graves. Os aspectos tratados são: a proposta de uma intervenção interdisciplinar que centre sua atenção no estudo de caso e na responsabilidade ética pelo tratamento; a necessidade de uma teorização sobre o destino do sujeito na psicose e a conceitualização do acompanhamento terapêutico como intervenção clínica.
El sujeto, como singularidad, desentona en el cuadro de la clínica
Víctor Novoa
Entre os aspectos que na clínica psicanalítica ainda não encontraram uma resposta satisfatória, estão os fenômenos psicóticos presentes no campo das neuroses. Desde o início de sua obra, em “Estudos sobre a histeria”, Freud se ocupou deles mencionando-os também em “Construções na análise”, sem que chegasse a uma resolução definitiva.
Lacan, por sua vez, delimita o terreno das psicoses propondo como seu mecanismo estrutural, a verwerfung. Sem dúvida, as neuroses e sua relação com este tipo de fenômeno ainda desperta, atualmente, o interesse dos psicanalistas que já propuseram várias explicações, sem, contudo, chegarem a um consenso quanto aos mecanismos que intervêm na produção de alucinações e delírios nos neuróticos, indicando que a investigação do tema continua aberta.
O processo de subjetivação na clínica psicanalítica com diagnóstico precoce do câncer
Cristina Lindenmeyer Saint-Martin
Este artigo dedica-se a trabalhar a problemática do efeito do diagnóstico de câncer em pessoas submetidas às técnicas de detecção precoce dessa doença. Ressalta uma especificidade no trabalho clínico psicanalítico, onde a autora introduz uma reflexão a partir do discurso de Freud após os anos 20. Através de algumas noções, tais como o traumatismo, o masoquismo, a repetição, também coloca no centro de sua experiência clínica os conceitos de trauma e clivagem propostos nos últimos textos de Ferenczi.
Estes conceitos apóiam a reflexão do autor sobre a complexidade transferencial e contratransferencial do trabalho psicanalítico desenvolvido com o paciente canceroso.
Clássicos da Psicopatologia
Apresentação a “Da anorexia histérica”
Mario Eduardo Costa Pereira
Charles Lasègue nasceu em Paris, em 1816. Tendo feito sua formação psiquiátrica na Salpêtrière sob a orientação de Jean-Pierre Falret, tornou-se conhecido pela acuidade e precisão de suas descrições clínicas. Algumas das entidades mórbidas por ele isoladas renderam-lhe a imortalidade na história da psiquiatria. É a ele que devemos a descrição do “delírio de perseguição” (1852), da chamada folie à deux (feita em parceria com Jules Falret, em 1879) e inúmeros trabalhos fundamentais sobre o alcoolismo.
Da anorexia histérica
Charles Lasègue
Tenho o sentimento de que não se conseguirá constituir a história das afecções histéricas senão pelo estudo em separado de cada um dos grupos sintomáticos; somente após esse trabalho prévio de análise, poderse-á reunir os fragmentos e recompor o todo da doença. Considerada em seu conjunto, a histeria apresenta uma quantidade excessiva de fenômenos individuais e incidentes aleatórios, para que o particular possa ser apreendido no geral.
Resenha de Livros
Diálogos à beira do abismo
José Luiz Caon
Cartas entre Freud e Pfister
Sigmund Freud e Oskar Pfister. Trad. Karin Hellen K. Wondracek e Ditmar Jung
Viçosa: Escuta, 1998.
O mito de Ulisses
Maurício Silveira Garrote
O mito de Ulisses. Estresse, câncer e imunologia
Fátima Deitos
Santa Maria: Kasa do Zé, 1997.
Resenha de Artigos
Por um visão crítica do DSM-IV
Mario Eduardo Costa Pereira
Puttign DSM-IV in perspective (editorial)
G. Tucker
The American Journal of psychiatry
1998
Três décadas de estudos sobre “cerébro dividido”
Mario Eduardo Costa Pereira
The split brain revisited
M. Gazziniga
Scientific American
July 1998, p. 35-39
Psicopatologia e estados mentais primitivos
Mario Eduardo Costa Pereira
Pschypathology and primitive mental states
R. Caper
International Jorunal of Psycho-Analysis
1998, 79, 539-551
Genética e psiquiatria
Mario Eduardo Costa Pereira
Genetics and psychiatry
M. Owen e P. McGuffin
Bristish Journal of Psychiatry
1997, 171, 201-2002
A metodologia do caso único psicopatologia: novas técnicas
Mario Eduardo Costa Pereira
Méthodologie et intérêt du unique en psychopathologie
J.-D. Swedsen e M.-L. Bourgeois
Annales Médico
1998, 156, 421-425